A REFORMA
DA CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO.
Depois
de vários meses de negociações com entidades empresariais e centrais sindicais,
a Casa Civil confirmou que a presidente Dilma Rousseff enviará ao Congresso,
até o final do mês, um projeto de flexibilização da Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), ampliando a autonomia de empresas e sindicatos nos dissídios
coletivos.
A
iniciativa de reformar a legislação trabalhista imposta pela ditadura varguista
não foi do governo, mas do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que até
recentemente resistia à adoção do princípio de que o negociado entre patrões e
empregados deve prevalecer sobre a lei.
O
anteprojeto foi entregue ao secretário-geral da Presidência da República,
Gilberto Carvalho, e ao presidente da Câmara, Marcos Maia (PT-RS), em setembro
de 2011. Entre outras inovações, ele prevê a criação do Acordo Coletivo
Especial (ACE).
Tendo por
objetivo reduzir o número de processos trabalhistas, o ACE é a versão
contemporânea das comissões de fábrica. Ele permitirá que o comitê sindical de
cada empresa negocie diretamente com a diretoria desde problemas corriqueiros
do dia a dia a benefícios e direitos.
A
primeira proposta com objetivo idêntico foi apresentada pelo governo Fernando
Henrique. Depois de uma acirrada polêmica com as centrais sindicais, no último
ano de seu mandato ele anunciou um projeto que permitia que os acordos
coletivos tivessem força de lei. Mas, por causa da oposição do PT, a proposta
foi engavetada.
Alegando que o avanço da tecnologia e a diversificação da economia tornaram a
legislação trabalhista defasada, cinco anos depois o presidente Lula retomou a
discussão, lançando um projeto de reforma sindical e de reforma trabalhista.
Mas, com receio de que as discussões entre empregadores e empregados
prejudicassem sua reeleição, ele o engavetou.
Com o tempo, os líderes sindicais entenderam que, em face das mudanças na
economia mundial, a CLT dificulta a formalização de acordos específicos com as
grandes empresas. Descobriram que, como a concorrência nos mercados é acirrada
e só vence quem oferece o menor preço, as empresas não hesitam em se transferir
para cidades, Estados e países onde o custo de produção é baixo.
Foi o que
ocorreu com o setor automobilístico. Na década de 1990, o Estado de São Paulo
respondia por quase 75% da produção nacional de veículos. Atualmente, apesar de
o Estado ser o maior consumidor dos produtos das montadoras, 60% dos automóveis
são fabricados fora do Estado.
Um dos
fatores responsáveis pela descentralização da produção automobilística foram os
excessos das reivindicações dos metalúrgicos do ABC. Tendo aprendido a lição, a
categoria passou de opositora a defensora da flexibilização da CLT.
O
anteprojeto agora em pauta autoriza o parcelamento de férias em três períodos e
a redução de 60 para 45 minutos do período de descanso e almoço, desde que haja
compensação na jornada.
Também
prevê que os acordos especiais só poderão ser firmados diretamente entre
empresas e sindicatos que comprovarem sua representatividade. O número de
trabalhadores sindicalizados na empresa tem de ser superior a 50% do total de
empregados, - a média nacional é de 18%.
A
diferença em relação aos projetos de FHC e Lula é que a proposta dos
metalúrgicos do ABC - encampada por Dilma - fixa parâmetros mais rígidos para
que o negociado prevaleça sobre o legislado.
Ao
negociar um acordo especial, por exemplo, os comitês sindicais não podem
eliminar direitos como o 13.º salário e o descanso semanal remunerado. Mas
terão autonomia para negociar a aplicação desses direitos conforme as
peculiaridades da empresa e os interesses da categoria.
Para as centrais sindicais, a CLT protege os direitos individuais dos trabalhadores, mas restringe o campo das negociações coletivas e tolhe a liberdade sindical. Para as empresas, a proposta dos metalúrgicos do ABC aumenta a segurança jurídica dos acordos coletivos. O mérito do governo foi ter percebido isso, acolhendo o anteprojeto de flexibilização elaborado pelos metalúrgicos do ABC.
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